domingo, 5 de abril de 2009

Deus da Razão...Parte II

Novamente fui questionado por colegas do “porque” ser tão crítico com relação às crenças sobrenaturais. E acho que alguns imaginam que essa minha “ira” seja ainda resquício de traumas no passado recente, que se não fosse por essa experiência eu “pegaria mais leve” ou, em outras palavras, que eu estaria “com raiva de deus”...Mas esse deus barbudo que fica sentado numa nuvem anotando os desvios humanos (e que supostamente me causou problemas) certamente não existe, então não teria sentido culpá-lo. O que mais me motiva na verdade é ajudar a diminuir o preconceito contra aqueles que fizeram a opção por não aceitar automaticamente a idéia de que Deus existe. É pretensioso, mas fazer parte de um grupo que pode servir de exemplo para outros “saírem do armário” parece gratificante.
Hoje eu imagino o que passou o primeiro gay quando assumiu sua condição para seus pais e amigos, como eu imagino as primeiras mulheres operárias chegando ao trabalho, ou o primeiro negro a se sentar entre os brancos na universidade. Faz muito pouco tempo que era normal ouvir: “Mulher minha não trabalha, e ponto final!!”, “negros no mesmo ônibus que brancos, que absurdo!”, ou ainda “Meu filho é macho, e isso não se discute nessa casa!!”. E esses absurdos duraram mais tempo do que deveriam, porque a maioria acreditava que realmente não deveria discutir esses assuntos. Talvez esteja longe ainda o dia em que falar “Não acredito num deus sobrenatural” não o transforme imediatamente num ser imoral. Ou no qual as pessoas possam livremente decidir, sem risco de sofrer discriminação, viver livre dos conceitos de pecado, punição, reverência, temor e salvação. Não pode haver motivação maior do que querer que seus filhos (e sobrinhos...rsrs) vivam num mundo realmente globalizado, sem que “grupos” religiosos os rotulem e segreguem. Onde a opção por não crer num ser sobrenatural seja abertamente discutida e respeitada como o que ela é, uma escolha pessoal válida e corajosa, e desvinculada de valores éticos e morais. E mais do que tudo, seria ótimo contribuir para colocar de volta os conceitos de “lógica”, “racionalidade”, “ceticismo”, “ciência”, no lugar onde qualquer ser superior digno gostaria que estivessem...

Na verdade todos somos seres racionais, acreditemos ou não no sobrenatural...E é por isso que a maior parte das pessoas se envergonha quando confrontada e obrigada a analisar suas crenças...Experimente observar a reação de alguém que diz acreditar que Deus nos fez “a sua imagem e semelhança”, se você lhe perguntar: “como assim, deus tem sexo? Ele é homem ou mulher? Se é homem, ele também tem inúteis seios? É peludo? Defeca?”, e quase com certeza essa pessoa irá enrubescer, desqualificar as perguntas como ridículas, e mudar de assunto. Quando experimentamos questionar insistentemente um místico, invariavelmente o deixamos desconfortável, e aqueles mais fanáticos combatem o desconforto brandindo asperamente os velhos chavões inócuos: “esse tipo de coisa não se explica”, “São misteriosos os caminhos do Senhor!”, “ele escreve certo por linhas tortas...” (essa frase é tão absurdamente desprovida de sentido que é difícil entender a razão de ser tão repetida! Que lunático um ser que aprecie ser defendido nesses termos...), “existem coisas que os olhos não podem ver!!” (talvez os vírus e as bactérias, que estranhamente não são citadas por deus no Gênesis, como nunca são citados, em toda a Bíblia, animais desconhecidos dos povos da região...hummm...os marsupiais da Austrália não estavam na arca??). Alguém consegue imaginar um ser inconcebivelmente extraordinário que prefira seguir um caminho misterioso?? Que prefira manter suas criaturas na escuridão da ignorância? Pra impressionar a quem?!

Mas a grande maioria da população não é de fanáticos (graças ao bom deus!!), mas sim de pessoas que se acostumaram com um conceito embutido nelas desde muito pequenas (aqui me lembrei da recente entrevista do Bispo de Olinda, o que excomungou a turma do aborto, para a revista Veja, onde ele diz algo do tipo “que bom o tempo onde as crianças aprendiam a rezar antes até de aprender a falar...”, ou algo parecido, e isso me estarreceu...) e que na verdade preferem desligar seu “ferramental cético” quando o assunto é Crença em Deus, já que são criadas acreditando nesse maravilhoso ser que pode nos tirar de qualquer enrosco, que ouve nossos problemas e nos sussurra soluções, nos acalma, nos conforta...e nos permite a delícia infantilóide de saber que iremos reencontrar as pessoas que amamos. "Então porque você quer que analisemos racionalmente, se isso nos trás tanto conforto?!". Nas palavras de Edmund Way Teale "moralmente é tão condenável não querer saber se alguma coisa é verdade ou não, desde que ela nos dê prazer, quanto não querer saber como conseguimos o dinheiro, desde que ele esteja na nossa mão...".

(ele é um pai amoroso, mas se não acreditarmos nele iremos arder no inferno para todo o sempre!! – aqui no Pará estou em período de aclimatação...).

Experimente comparar a mitologia judaico/cristã com todas as demais já existentes, e novamente os fiéis ficam sem palavras, pois são tantas as coincidências que só um deus muito sem imaginação criaria sua igreja nessas bases.
Esse parágrafo de Christopher Hitchens sintetiza o que é necessário dizer sobre Mitologia, referindo-se ao nascimento imaculado de Jesus: “Sim, e o semi-deus grego Perseu nasceu quando o deus Júpiter visitou a virgem Danae na forma de um banho de ouro e a engravidou. O deus Buda nasceu através de uma abertura no lado do corpo de sua mãe. Coatlicue, a serpente, pegou uma pequena bola de plumas do céu e a escondeu em seu seio, e assim o deus asteca Huitzilopochtli foi concebido. A virgem Nana pegou uma romã da árvore banhada pelo sangue do assassinado Agdistis, colocou-a em seu seio e deu à luz ao deus Attis. A filha virgem de um rei mongol acordou certa noite e se viu banhada por uma luz grandiosa, que fez com que ela desse à luz Gêngis Khan. Krishna nasceu da virgem Devaka. Hórus nasceu da virgem Ísis. Mercúrio nasceu da virgem Mais. Rômulo nasceu da virgem Rhea Silvia.” Como já disse, mitologia é a religião dos outros...

No fundo, tenho certeza absoluta, a esmagadora maioria de crentes são aqueles que “acreditam na crença”, foram ensinados a acreditar, acham importante acreditar, e acreditam que não tem alternativa, mesmo porque, o mundo seria terrível se não fossem as religiões. Muitos chegam a falar abertamente: “O povo precisa dela!”. Ou seja, “eles”, os ignorantes, os fracos, os de “baixo QI”, não teriam onde se agarrar para buscar consolo, formariam hordas imorais... “Lógico que NÓS não precisamos, mas ELES, se não acreditarem no inferno...”. Acho esse argumento bastante infeliz e elitista. Sim, existe alternativa. Nós podemos acreditar na razão, nos assombrar com os mistérios extraordinários da natureza, aceitar que somos afortunados por viver (poucos anos) num planetinha insignificante na periferia de uma galáxia insignificante, livres dessa subordinação ridícula a dogmas medievais, tendo a certeza de que deus, caso exista, não está ansiosamente aguardando o momento de nos enviar para a tortura eterna.

Galileu Galilei: "Não consigo acreditar que o mesmo deus que nos deu inteligência, razão e bom senso nos proíba de usá-los."

2 comentários:

  1. As pessoas estranham alguém criticando a religião porque estavam acostumadas com a proteção que vem do costume "religião não se discute". Vi uma palestra do Dawkins onde ele pergunta: "por que política, futebol, posição sobre o porte de arma e a pena de morte são passíveis de crítica e a crença religiosa não? Porque provavelmente ela não resistiria à crítica, e isso porque não há como resistir sem argumentos racionais." (não exatamente com essas palavras)

    Então believers, acostumem-se...parece que descobrimos que religião se discute SIM.

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  2. é isso aí...mas discute-se com calma, já que praticamente todo believer tem um Torquemada dentro de si, farejando "heréticos" para serem "corrigidos" por meios "cristãos"...

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